segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Intermezzo



Passou dias ensaiando o que falar. O texto era bonito, incompleto, cheio de espaços vazios, dramaturgia refinada de quem entende do ofício. Dormia e acordava pensando nisso, e de madrugada escrevia, escrevia...

“Eu adoro o seu sorriso, seus olhos de menino. Adoro todas as piadas sem graça que você inventa, porque entre vinte, sempre sai uma boa, e vale a pena o sacrifício. Eu adoro o seu senso de humor, com você eu sempre me divirto. Seus olhos, ah os seus olhos... lembro da primeira vez em que encontrei os seus olhos, eu me encantei pelo seu encanto e quis descobrir o porquê de tanta água guardada, salgada, adorada. E todo aquele cheiro gostoso de maresia. Certa vez eu acordei feliz e te contei como quem não soubesse do por quê; mentira, eu sempre soube que era por você. É que naquele dia alguma coisa ganhou forma, algo que crescia e continua crescendo, e que nem está formado ainda, mas que deseja continuar, alguma coisa como a balada secreta de Satine e o jovem poeta, um everyday I love you more and more que não cansa a minha playlist.”

Hoje, ao acordar, percebeu o contrário do amor. Não era ódio nem derivados. A voz dele no telefone trazia paz, mas sentiu medo. Ele não estava mais em primeiro lugar, o frio se impôs em todas as frentes.
Perguntei-lhe sobre os ensaios e ela me disse que vai continuar. Talvez mude alguns pronomes nos próximos versos, mas, nesse começo, a única alteração são os verbos: o que era no presente, agora é passado.

“Eu adorava, eu ia, eu queria, eu cuidava, eu investia, eu ligava. Eu adorei, eu fui sem me preocupar, eu não pensei, eu vivi, eu morri... eu morri... eu mô... amor... ri.”

1 parambólicos comentaram:

Lii Schuede disse...

E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração... e quem irá dizer que não existe razão...?